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CRÔNICA: PODEMOS DETECTAR SABOR NOS PROJETOS ARQUITETÔNICOS?

03/02/2015

A “deliciosidade” de um lugar: será que a arquitetura tem sabor?

Que delícia de espaço! Ouvimos (ou proferimos) essa exclamação quando deparamos com um local charmoso, acolhedor, que acomoda bem o corpo e a alma e nos traz aconchego, paz. Então, sim, é bem provável que o ambiente se alinhe, em sintonia, às qualidades sensitivas que nosso paladar consegue captar. A designer de moda japonesa Junko Koshino lembra que se escreve a palavra “delícia”, em sua língua materna, com dois ideogramas: de beleza e sabor. “Nesta ordem”, enfatiza a estilista. Ou seja, a estética também é fundamental na comida. Não são poucos os que dizem que os pratos japoneses devem ser contemplados antes de degustados, e seu caráter visual foi também um dos atributos pelos quais a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) registrou essa culinária como Patrimônio Cultural Intangível da Humanidade em dezembro de 2013. Mas o que é, de fato, esse “belo sabor”? Os japoneses descobriram, cientificamente, que temos a capacidade de distinguir, além de doce, salgado, azedo e amargo, um quinto gosto, denominado umami. Trata-se de uma sensação intensa, que nos faz salivar e dá um prolongamento do gosto na boca. Por causa dessa característica, ela certamente permanece mais tempo na memória afetiva. Uma boa refeição, que nos leva àquele estado de levitação, é assim, rica em umami. Seria possível uma correspondência dessa sensação na percepção dos espaços? Há um umami, um quinto gosto, também na arquitetura? Acredito que sim. Mas, para começar, o projeto deve transcender o apelo visual sem se limitar às regras da simetria, da coerência formal ou dos critérios de seleção dos materiais. Precisa haver alguma coisa capaz de transformar tudo isso em algo inusitado e meditativo. Talvez seja necessário, inclusive, transgredir a simetria, a coerência e certos dogmas da arquitetura para alcançar um resultado menos óbvio, mais sugestivo. Até porque a pessoa que habita esses lugares, na maioria das vezes, não é lá muito simétrica nem tão coerente. A “deliciosidade” pode estar numa penumbra, num cantinho translúcido, num caminho curvo e sem perspectivas, daqueles que nos fazem imaginar o que virá pela frente. Ambientes de sugestão, carregados de certo mistério. Eis o charme de um gosto profundo na arquitetura: beleza e sabor.

Matéria publicada na revista arquitetura & construção em setembro de 2015.