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BACCARAT BUSCA LUGAR NO "LIFESTYLE" ATUAL

22/01/2015

A trajetória suntuosa começou com Luís XV em 1764 e continua com o acionista majoritário, o grupo Starwood. Entre dezembro e janeiro está prevista a abertura, na Quinta Avenida, do "hotel & residences" Baccarat, com diárias a partir de US$ 800 e cujos apartamentos - espera o investidor - passam a ter o m2 mais caro de Manhattan. Este é mais um dos desdobramentos da marca da mais luxuosa cristaleria do mundo, que, ao completar 250 anos, quer ampliar sua expressão e reconhecimento em várias praças. No Japão, por exemplo, seu principal mercado, já existem quatro B Bars - bares Baccarat muito reluzentes. Para não ficar engaiolada na arca de louças da aristocracia, a empresa está perseguindo seu lugar no "lifestyle contemporâneo".

O Brasil, no século XIX, era o terceiro maior comprador de Baccarat. Hoje, tem a maior loja da marca fora de Paris, inaugurada em agosto do ano passado. São 1,2 mil m2, um projeto de Roberto Migotto, na alameda Gabriel Monteiro da Silva, corredor da decoração em São Paulo. "É um país com mais de cem anos de relacionamento com a marca, diferente da China onde estamos há pouco tempo. Aqui há gosto e dinheiro para acompanhar a Baccarat", diz Daniela Riccardi, CEO da empresa. Na semana passada, ela esteve em São Paulo para mais uma das muitas comemorações de aniversário da cristaleira de origem francesa. A festa ambientada na loja, entre peças de design centenário e arranjos de Vic Meirelles, foi embalada pela bateria da X-9 e passistas "vestidos de Baccarat".

Foi a primeira vez da italiana Daniela por aqui à frente da companhia, mas ela já conhece o Brasil de longa data. "Eu trabalhei 25 anos na Procter & Gamble e fui CEO da Diesel. Vim várias vezes e conheço as particularidades e as belezas deste país." Por isso mesmo, sabe que não dá para se deixar seduzir pelo ronco da cuíca. "Os consumidores brasileiros são target para muita gente. Mas vejo como uma oportunidade de expansão cautelosa, nada dramática. Ao lado do nosso parceiro, num prazo de cinco anos, pretendemos abrir mais uma ou duas lojas em São Paulo e uma no Rio. Não queremos saturar o mercado."

O representante da marca aqui é Luiz Cláudio Bez, da família do antiquário Began. Foi arrematando peças da aristocracia decadente que a família se tornou uma das maiores revendedoras de "chandeliers" usados. "Meu pai era também um colecionador de Baccarat e eu me apaixonei pela marca. Durante mais de 20 anos fui à França pedir para ter a monomarca no país. Finalmente consegui."

Em pouco mais de um ano, diz ele, a butique superou em 20% sua meta de vendas. "E isso com Copa e eleições. O público não é só 'A gargalhada', tem muito 'A normal'. Hoje somos a quinta loja da Baccarat que mais fatura, atrás de Japão, Estados Unidos, França e Rússia." Neste mês, seguindo o que já foi adotado em outros países, ele começou a vender os produtos pelo "e-commerce". E embala peça por peça na própria butique antes de despachá-las pela transportadora. "A loja virtual é uma ferramenta para ampliar a presença da Baccarat nas listas de casamento. Quero que isso represente 25% do negócio."

Essa é uma das razões pelas quais Daniela estava aqui. "Precisamos destacar os copos e itens de mesa que são 50% do nosso negócio no mundo. Nesta loja, pela localização, os produtos que mais vendem são 'chandeliers' e os decorativos." Os lustres, por sinal, são um caso à parte. Custam em média R$ 90 mil e pesam cerca de 200kg. Uma das maiores preocupações de Bez, portanto, é com a instalação. Muitas vezes os arquitetos, conta, não montam a estrutura correta para suportá-los. "Uma vez fiz uma celebridade assinar um termo de responsabilidade nos isentado dos riscos da instalação. Ela decidiu acatar o que sua arquiteta recomendou e que era um erro estrutural. Uns 60 dias depois o lustre despencou."

É curioso que peças de cristal possam despertar desejo, em especial entre o público mais jovem. Mas Daniela acredita que o segredo da Baccarat é justamente a beleza atemporal das criações. "Nunca seguimos tendências ou o mundo fashion. Ainda assim temos um 'chandelier' como Zénith ou copos como o Harcourt, que têm mais de cem anos e que continuam sendo best-sellers. Designers como Philippe Starck e mesmo os irmãos Campana recriam em cima dessas peças já consagradas."

Uma das formas de atrair o público jovem é por meio das 'bijoux', mas não só. "No começo da vida eles podem não ter dinheiro suficiente para ter as peças mais caras, mas quando montam suas casas faz sentido ter um vaso ou copos. Qualquer um, tenha 20 ou 70 anos, que entre num lugar como este sente-se atraído por esse mundo brilhante. A Baccarat não precisa educar o consumidor, só se tornar mais presente e ser desejável", diz ela. Uma das formas para levar novos consumidores para suas butiques é justamente se tornando um "cenário" para festas de outras marcas, parcerias que são feitas com frequência até mesmo no Brasil.

Em 2013, a Baccarat faturou € 149,3 milhões. O Japão foi o país que mais ajudou nesse resultado, enquanto a Europa continuou patinando. "Somos uma empresa de 250 anos e poucas marcas de luxo sobrevivem tanto tempo a crises, diferentes donos e CEOs. Nossos resultados têm sido relativamente estáveis, sem grandes altos e baixos. Minha missão é preparar a marca para os próximos 250 anos. Fazer o negócio crescer, aumentar a lucratividade, mas manter o DNA e o prestígio imaculados." Uau!

Uma oportunidade de mergulhar nessa trajetória é a exposição aberta na última segunda no Petit Palais, em Paris, e que fica em cartaz até 4 de janeiro. São 500 peças que testemunham o "surpreendente virtuosismo dos artesãos da Baccarat". Muitas das peças são de coleções particulares, outras vindas dos acervos dos principais museus franceses. Objetos monumentais, como a penteadeira e cadeira de cristal da Duquesa de Berry, dão a dimensão do espaço que a marca já ocupou no cotidiano da aristocracia. E servem de respaldo para seguir ocupando os palácios do século XXI, ainda que sejam espigões no coração de Nova York.

Matéria publicada no jornal Valor em 15 de outubro de 2014 por Angela Klinke.