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EM SILÊNCIO NA TAILÂNDIA

16/01/2015

Práticas que estimulam o consumo, como o design, estão em crise; nossos bens serão cada vez mais virtuais Estou em Samui, uma ilha no sul da Tailândia, no dia em que completo 35 anos.

Depois de uma semana trabalhando em Bangkok, decidi celebrar meu ano novo sozinho, em silêncio. Estar nesse ambiente me faz pensar em muitas coisas, gostaria de compartilhar algumas com você.

1. O design está em crise. Assim como todas as outras práticas que estimulam o consumo. Precisamos desmaterializar nosso cotidiano. Temos que aprender a viver com menos matéria física. Pura questão de sobrevivência. Nossos bens serão cada vez mais virtuais, como nossas fotos e as músicas que ouviremos, livros que leremos, filmes que assistiremos. Tudo interligado em rede, no ciberespaço.

2. O design é uma disciplina fundamental. O mundo ficou enfim, pequeno. Gente demais, espaço de menos. Problemas de diferentes escalas, planeta ferrado. Se design é solucionar problemas, desenhar tais soluções através de estratégias de projetos inovadores deve salvar nossas vidas. Exemplos? Aplicativos que otimizam o trânsito nas metrópoles, tecidos biodegradáveis para uma moda sustentável,

edifícios que produzem energia para si e para os vizinhos, edifícios hortas para alimentar cidades superpopulosas.

3. 'Slow life, slow design'. Silêncio, reflexão, calma. As melhores coisas precisam de tempo. Nossa geração frustrasse rápido demais, é ansiosa demais, desiste rápido demais. O bom projeto precisa de maturidade, de tentativas e erros. É preciso fazer experiências até se chegar ao melhor resultado. Nosso ambiente e nossas vidas poderiam ser tão melhores se lembrássemos disso.

4. Menos pretensão, mais pé no chão. Os interiores mais bonitos, os edifícios mais incríveis e as cidades mais bacanas que visitei até hoje foram aqueles que se pautaram pela simplicidade (não confundir com simplista). Foram os que não tentaram ser algo que não são, não fingiram. "Chique e sofisticado" é ser honesto, autêntico, verdadeiro. É fazer muito com muito pouco. Um edifício pode ser arrogante, uma cidade esnobe e um objeto mentiroso. Desses eu fujo, assim como devemos fugir de pessoas assim.

O design imita a vida? Ou a vida imita o design?

Matéria publicada no jornal Folha de São Paulo em 30 de novembro por Guto Requena.