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LINA BO BARDI REDESCOBRIU O BRASIL

09/01/2015

No ano de seu centenário, lembramos a obra realizada no país pela arquiteta italiana, naturalizada brasileira. Em busca de modernidade com liberdade, ela aprofundou-se em nossa cultura popular e a promoveu nos seus projetos

Há exatamente 61 anos, a casa modernista que a arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi projetou em 1951 no Morumbi, em São Paulo, foi publicada na primeira edição da revista Casa e Jardim, em 1953. Na época, a construção de concreto elevada no terreno por pilotis feitos de tubos de aço e fechada por painéis de vidro não era conhecida pelo nome Casa de Vidro, como depois passou a ser chamada pela vizinhança. Hoje, em rápida visita ao imóvel – idealizado por ela para viver com o marido, o marchant italiano Pietro Maria Bardi –, a sensação é de que a residência parou no tempo, embora continue atual.

Lina faleceu em 1992 na Casa de Vidro e, desde a morte de Pietro em 1999, a propriedade é conservada pelo Instituto Lina Bo e P.M. Bardi com os ambientes quase intactos: os mesmos acabamentos, a maioria dos móveis – muitos desenhados por ela – e das obras de arte. Situação apropriada para este ano, quando jornalistas e pesquisadores de vários países buscam informações sobre a obra dela para eventos que celebram, aqui e lá fora, o centenário de seu nascimento.

Batizada Achillina Bo, a arquiteta nasceu no dia 5 de dezembro de 1914, em Roma. Se estivesse viva, ela provavelmente sorriria ao ver o design, o artesanato, a cultura e a moda do Brasil sendo mais valorizados no país e no exterior, depois de se dedicar a tudo isso. Com certeza, torceria o nariz diante dos edifícios neoclássicos, mas ficaria satisfeita, e até orgulhosa, dos projetos modernistas que seguem seus preceitos.

A originalidade, defendida por ela, pode ser vista em peças de design que carregam sua assinatura, como a linha de cadeira e mesa Girafa (1987), fabricada pela Marcenaria Baraúna, e a poltrona Bowl (1951), relançada com produção limitada de 500 peças pela marca italiana Arper. Mas a importância de Lina está nos conceitos de liberdade, de integração da casa com a natureza e de recuperação de processos simples de nossa arquitetura, como o fechamento com muxarabi, e o concreto aparente, sem acabamentos.

Na Casa de Vidro, seu primeiro projeto executado, chamam atenção os detalhes, como as maçanetas em forma de chifre e o uso da mesma cor azul das pastilhas de vidro, que revestem o piso da sala, na pintura dos pilares e nas bases de móveis tubulares: mesas, poltronas e a cabeceira da cama. Tudo criado pela arquiteta, que se encantou pelo Brasil desde sua chegada, em 1946.

Decepcionada com a Itália, logo depois do fim da Segunda Guerra Mundial, Lina atravessou o Oceano Atlântico com seu marido em busca de novas oportunidades. “Lá só havia destruição, e eu queria construir”, afirmou ela em uma de suas muitas entrevistas. “O que nos empolgou a vir para o Brasil foi saber, na época, da arrancada da arquitetura moderna por aqui. Eu me senti em um país onde tudo é possível; aqui reencontrei as esperanças perdidas nos dias de guerra.”

Ao lado de Pietro, Lina criou o Museu de Arte de São Paulo – MASP, cujo prédio construído entre 1957 e 1968 em plena Avenida Paulista, com seu famoso vão livre de 74 m de largura, tornouse um dos marcos arquitetônico do país. Naturalizada brasileira, ela não parou por aí. Entre suas obras, destacam-se os centros de cultura criados a partir da revitalização de imóveis antigos: o Museu de Arte Moderna no Solar do Unhão, em Salvador, Bahia (1963), e o SESC Pompeia, em São Paulo, inaugurado em duas etapas: 1977 e 1982.

Com esses projetos, a arquiteta resgatou referências do modo de vida do brasileiro, segundo um de seus colaboradores, o arquiteto André Vainer. “Lina buscava nas obras soluções autênticas que não repetissem modelos importados”, diz. “Para o vão do MASP, ela adotou a laje protendida desenvolvida pelo engenheiro paulista Figueiredo Ferraz, antes que as patentes internacionais entrassem no país.” André testemunhou o olhar estrangeiro que Lina teve para as questões sociais ao propor alternativas. “Ela adequava os projetos aos materiais disponíveis e usava os mais variados: barro, concreto, madeira. Já pensava na sustentabilidade e colocava a arquitetura a serviço do homem: não como obra de arte ou estética.”

Matéria publicada na revista Casa & Jardim em dezembro de 2014 por Marilena Dêgelo.