English Version

OS NERDS E OS CERTINHOS

18/12/2014

A origem do termo nerd é incerta. Há várias explicações para a palavra, uma aparentemente mais fantasiosa que a outra. Uma das versões é que seria uma sigla para Northern Electric Research and Development, uma referência ao Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento da canadense Nortel. Em algum momento, os técnicos que trabalhavam nessa área teriam passado a ser identificados pela palavra. Outra história remete ao Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o MIT. Os alunos mais certinhos teriam recebido a alcunha de "Knurd", ou "drunk" (bêbados) ao contrário. Há também quem diga que o termo deriva de um personagem infantil do escritor e cartunista americano Dr. Seuss.

Seja como for, os nerds passaram por uma reabilitação formidável nos últimos tempos. Em boa parte, isso decorre do sucesso de homens de negócio que construíram grandes empresas de tecnologia. Bill Gates, da Microsoft; Steve Jobs, da Apple; e Mark Zuckerberg, do Facebook, são exemplos bem acabados de nerds - todos muito bem-sucedidos. Essa mudança não vem de hoje. Na década de 90, um livro de Robert X. Cringely já prenunciava a transformação, sob o título "Impérios Acidentais: como os garotos do Vale do Silício ganham milhões mas não arranjam namorada".

Essa falta de traquejo social é o mote de séries de TV recentes de grande audiência, como "The Big Bang Theory" e "Silicon Valley", com a diferença de que a timidez e as manias dos personagens são vistas com simpatia. Na trama, eles são as estrelas, não o personagem secundário ridículo.

Na Comic Con Experience, que começa hoje em São Paulo, os organizadores vão divulgar uma pesquisa feita com 12 mil pessoas em todo o Brasil. Os resultados confirmam que o nerd é majoritariamente homem e solteiro. É jovem, mas nem tanto. Quase 40% deles têm de 22 a 30 anos de idade. A renda familiar de quase metade (47%) vai de 4 a 20 salários mínimos e o grau de instrução é alto: um quarto dos nerds tem curso superior completo. Outros 34% têm superior incompleto, mas isso não significa que abandonaram a universidade. Por causa da idade, muitos ainda estão no banco escolar.

É um público com capacidade - e disposição - para consumir produtos que estejam relacionados a suas áreas de interesse, como personagens de fantasia e ficção científica. Mas a influência dos nerds vai além de seu próprio bolso. A paixão por super-heróis, por exemplo, ajudou a tornar esses filmes sucessos de bilheteria para espectadores que não davam a mínima ao tema. "Quando eu era criança, ler revista em quadrinhos era coisa de mané", diz Heitor Valadão, um fã convicto da cultura pop. "Minha escola tinha milhares de alunos e só eu lia HQ. Hoje, pessoas que nunca leram quadrinhos usam camiseta do Capitão América. Virou coisa normal". Em certa medida, todos se tornaram um puco nerds.

Algumas questões, porém, parecem preocupar apenas os mais nerds entre os nerds. Por exemplo, se nerd e geek é a mesma coisa. Segundo a pesquisa da CCXP, que organiza a convenção, a maioria (81,3%) acha que é tudo a mesma coisa. Mas quase 20% diz tratar-se de coisas diferentes. Para quem ficou perdido, nerds estariam mais para as ciências e a matemática e os geeks, para a tecnologia. Mas em se tratando de pessoas tão detalhistas, as definições estão sujeitas a longas discussões.

Matéria publicada no jornal Valor Econômico em 04 de dezembro de 2014 por João Luiz Rosa.