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NO BRASIL, NERD CRESCE, APARECE E CONSOME

16/12/2014

Heitor Valadão lê revistas em quadrinhos desde que tinha 12 anos. Fã do Super-Homem, ele precisou se desfazer da coleção - "umas cinco mil revistas no mínimo", diz - depois de se casar. Não havia lugar suficiente no apartamento, onde ele abriga o mesmo número de filmes. Mas será difícil evitar novas compras nos próximos dias. Aos 36 anos e prestes a ser pai pela primeira vez, Valadão vai viajar de Belo Horizonte a São Paulo para participar da Comic Con Experience, uma convenção de cultura pop cujo ingresso mais caro custa R$ 5 mil. "Encomendei ilustrações do Aquaman a desenhistas profissionais para ser autografadas pelo Jason Momoa", conta Valadão, animado. O ator americano, uma das atrações do evento, fez sucesso na série de TV "Game of Thrones" e vai interpretar o herói aquático no cinema.

Consumidores como Valadão colocam em evidência tanto a vitalidade da cultura pop como a influência crescente no mercado de entretenimento de um personagem até então subestimado: os nerds.

No Brasil, a cultura pop ainda é relativamente pouco explorada, mas isso está mudando. Um sinal é a própria Comic Con Experience, que vai de hoje a domingo. A meta original dos organizadores era ocupar 15 mil metros quadrados e atrair de 40 mil a 60 mil visitantes. Com o interesse prévio despertado entre empresas e o público, o plano foi revisto e a convenção vai ocupar os 39 mil metros do Expo Imigrantes, na zona sul da cidade. A previsão é receber entre 80 mil e 100 mil visitantes. "Mesmo nas projeções mais otimistas, a expectativa é que só teríamos um cenário como esse em três anos", diz Pierre Mantovani, sócio da CCXP, que organiza o evento.

Na esteira da "economia nerd", muitas empresas brasileiras têm encontrado novos formatos de negócios, estimuladas pela tecnologia. Em 2011, o UOL comprou o BoaCompra, que publica e fornece meios de pagamento para jogos on-line. A empresa foi fundada em 2004, por Christian Ribeiro, que identificou uma lacuna na área. Muitos amigos não conseguiam comprar créditos para jogar via web porque não tinham cartão de crédito internacional. Ribeiro usava o cartão do pai para intermediar a compra dos companheiros.

A despeito de iniciativas como essas, a avaliação é que a maioria das empresas no Brasil ainda não aproveita bem as vantagens da cultura pop. O problema? De um lado, há um desconhecimento de como funciona o mercado, diz Marcos Avó, da consultoria Lunica, de São Paulo. O modelo vigente é o do "blockbuster" - lançamentos milionários feitos por estúdios de cinema, por exemplo, em um personagem. Cabe às companhias entender se o personagem tem apelo para seu público e usá-lo nos produtos, aproveitando os investimentos em marketing já feitos pelo dono do conteúdo. Muitas vezes, essa oportunidade é perdida.

"É preciso estimular as marcas brasileiras a contarem histórias", diz Mantovani, da CCXP. Na Comic Con, vai haver uma competição de quadrinistas encarregados de uma missão especial: criar uma história em quadrinhos para narrar as aventuras de engenheiros da Petrobras que exploram o pré-sal em ambientes inóspitos. O resultado será transformado em um livro digital que poderá ser baixado via internet. "Todo mundo quer ser astronauta porque os filmes os transformaram em heróis. Por que não fazer isso com personagens brasileiros?", diz Mantovani.

Matéria publicada no jornal Valor Econônico em 04/12/2014 por João Luiz Rosa.