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O PODER DA ECONOMIA CRIATIVA

11/11/2014

A indústria movida pelo capital intelectual se torna uma peça-chave para acelerar o desenvolvimento de países emergentes

Em seu último Relatório de Economia Criativa, a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) destacou o setor como sendo um dos mais dinâmicos da economia mundial. Prova disso foi a forma como ele reagiu à recessão econômica mundial em 2008. Nesse período, enquanto o comércio global sofreu uma retração de 12%, as exportações mundiais de produtos e serviços criativos mantiveram uma taxa de crescimento de 14% ao ano. Essa resiliência sinaliza, segundo o órgão, que a economia criativa pode contribuir (e muito) para a prosperidade de países em desenvolvimento que estejam buscando se fortalecer e diversificar suas economias.

Desenvolvido pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), o Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil enumera os 14 segmentos que compõem o setor, como artes, biotecnologia, design, moda, música, pesquisa e desenvolvimento e software e computação. “As matérias primas dessa indústria são os talentos humanos, em especial a inteligência criativa”, diz Eduardo Eugenio Vieira, presidente da Firjan. De acordo com o relatório, as 243 000 empresas brasileiras que compõem a indústria criativa produzem o equivalente a 2,7% do PIB. Além disso, o mercado formal de trabalho do núcleo criativo reúne 810 000 profissionais - metade deles concentrada nos setores de arquitetura e engenharia, publicidade e design. A remuneração do setor é quase três vezes superior à média nacional.

Países criativos

Segundo a economista Neusa Santos, professora de economia criativa da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), a Inglaterra se tornou referência em economia criativa ao mapear, na década de 1990, as atividades com maior potencial de crescimento. Já países asiáticos, como a China, adotaram estratégias como a de aproximar o setor industrial do criativo e estimular ministérios a trabalhar em conjunto. Com isso, o país passou a criar produtos e serviços de alto valor agregado. Hoje, a orientação do governo é que os itens que saem do país não sejam mais rotulados como “feitos na China”, mas, sim, como “criados na China”. “O desenvolvimento da economia criativa é uma resposta à transformação da sociedade industrial em pós-industrial, na qual se destacam necessidades de ordem estética, intelectual e de qualidade de vida”, diz Neusa.

Para os especialistas, transformar um conteúdo criativo em objetos de desejo é outro ponto fundamental para fomentar o setor. “A Apple é um bom exemplo disso”, diz Vieira. Envolver a comunidade é outro ponto que, segundo Neusa, merece um olhar atento dos governos. “Um exemplo disso é o Festival de Jazz e Blues no município de Guaramiranga, no Ceará”, diz a economista ao se referir ao evento que, há 15 anos, usa a arte para atrair investimentos e promover a inclusão social, melhorando a autoestima da população. A última década serviu para que as nações percebessem a importância das indústrias criativas para suas economias. Resta, agora, saber aproveitar o potencial que elas têm a oferecer.

Materia publicada na revista Exame 15/10/14