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O PODER NOS TEMPOS DA DELICADEZA

05/11/2014

Feministas ou simplesmente femininas? A temporada de prêt-à-porter de primavera-verão 2015, do Hemisfério Norte, trouxe à baila os dois adjetivos para definir o perfil das mulheres das próximas estações. Para o diretor criativo da Chanel, Karl Lagerfeld, o momento é de falar do poder das mulheres. Por conta disso, o seu desfile multicores e texturas, armado no Grand Palais, em Paris, terminou em passeata de modelos pedindo igualdade entre os gêneros.

Mas se nem todos os desfiles terminaram em panfletagem, boa parte deles também exibiu uma ode à delicadeza. Das coleções mais impactantes da temporada, saíram formas vaporosas, cores adocicadas e estampas aquareladas ou orgânicas. Tudo leva a crer que, mesmo cheia de si, a mulher não precisa masculinizar o visual.

Se a coleção da Chanel coloriu enfaticamente o guarda-roupa para as próximas estações, a da Burberry fez uma incursão ainda mais ousada no terreno da fantasia das noites de verão. Para o diretor criativo Christopher Bailey, foi o momento de deixar a cliente da marca mais jovial - às vezes com certo exagero nos elementos que remetem à ingenuidade.

Como já fizeram outras marcas de luxo, como a própria Chanel, a Burberry calçou suas moças com tênis esportivos coloridos, inclusive nos looks mais românticos. Apesar das consumidoras mais antenadas com a tendência já terem assimilado que os tênis são as novas sapatilhas, o resultado pareceu infantil. Isso ocorre principalmente quando os tênis acompanham vestidos delicados e de tons pastel. Mas se Bailey peca nisso e no excesso de babados e laçarotes, acerta na "repaginada" feita nos trench coats, ainda o casaco-símbolo da Burberry. Ele ganhou novas cores, tecidos (como o jeans) e estampas vivas.

Como reza a tradição da casa florentina, a Emilio Pucci usou novamente as cores fortes a seu favor. Mais precisamente, foram as tonalidades típicas do crepúsculo do verão da Toscana que adornaram vestidos vaporosos, com apelo "hippie chic", e peças de alfaiataria com corte ajustado. A mulher da marca, seja em vestidos esvoaçantes ou com peças mais ajustadas, parece igualmente feminina e segura de seu "sex appeal". O foco parece ser uma mesma mulher - executiva contemporânea, durante o dia, romanticamente fatal, à noite.

Na coleção da Valentino, flores e arabescos trouxeram um pouco da estética italiana de outros tempos para o guarda-roupa contemporâneo - nada cafona, tudo muito "cool". Moderno e antigo se mesclam entre vestidos curtos e longas túnicas.

Na coleção, alternam-se vestidos com babados em camadas, com sensualidade cigana, com modelos austeros de apelo pueril. Transparências e bordados também tiveram vez, em longos vestidos-camisolas vaporosos. Nos pés, sandálias estilo gladiador completa a onda "vintage". Em comum, tudo absolutamente feminino e sofisticado.

O preto e o vermelho deram o tom da passarela de outra italiana, a Dolce & Gabbana, que levou a estética espanhola para as passarelas. Uniformes de toureiros e figurinos de flamenco aparecem "citados" em peças de apelo sexy, que marcam as formas femininas. Nada muito diferente do que a dupla de estilistas já fez usando a beleza da mulher siciliana como tema. Embora com alteração geográfica, a inspiração foi oportuna para o clima libertário.

Como sempre, a Prada foi ponto fora da curva na recriação da fêmea romântica proposta por outras casas de moda. O colorido, quando aparece, traz combinações que fogem dos tons típicos das estações quentes e luminosas. Miuccia Prada prefere os tons frios ou terrosos e privilegia as combinações menos populares. Mistura roxo, caramelo e amarelo; ou mesmo marrom, verde, laranja e branco.

Na coleção da Prada, nada grita ou aquece. Ela não cede aos estereótipos sedutores, mesmo quando mistura retalhos de tecidos bordados para fazer um vestido ou um casaco. O decorativo, nesse caso, não tem nada de óbvio. Quando não mistura cores, Miuccia elege o azul-marinho, o marrom e o preto para construir peças sóbrias, com modelagem esportiva e sem adornos desnecessários. Porque nem só de meiguice se constrói uma mulher poderosa.

Matéria publicada no jornal Valor Econômico em 07 de Outubro de 2014