English Version

INDÚSTRIA DO LÁPIS BUSCA TER RELEVÂNCIA NA ERA DO TABLET

17/10/2014

Fabricantes de lápis e canetas estão voltando à escola para aprender a vender ferramentas para a escrita na era dos smartphones, tablets e laptops.

Alguns, incluindo a americana Crayola LLC e a alemã Staedtler, estão abraçando a revolução digital com produtos eletrônicos. A Digitools da Crayola — uma gama de instrumentos de plástico com ponta de borracha — permite que as crianças “carimbem”, “desenhem” e “pintem” em um tablet através de um aplicativo gratuito da Crayola que acompanha o produto.

A Staedtler lançou a Digital Pen 990, que opera como uma caneta esferográfica normal mas converte simultaneamente tudo o que é escrito em arquivos digitais. Um receptor preso ao caderno copia e armazena cerca de cem páginas escritas em até 30 línguas.

Mas nem todo mundo no setor está com pressa para abraçar a tendência.

A alemã Faber-Castell, a fabricante de lápis mais antiga do mundo, só neste mês deu o primeiro passo em direção a produtos com interface digital. A empresa, que também vende borrachas, apontadores e artigos para a produção artística, acabou de lançar um lápis com uma ponta de borracha para ser usado como “stylus” de tablets e smartphones.

Outras empresas, como a francesa Bic e a alemã Schwan-Stabilo, estão na frente da Faber-Castell ao unir o velho e o novo. A caneta Cristal Stylus, da Bic, e a Smartball, da Stabilo, parecem e funcionam como as canetas clássicas, mas uma ponta acolchoada pode ser utilizada para navegar em telas sensíveis ao toque.

A Faber-Castell, no entanto, ainda espera que os lápis de madeira continuem representando cerca de 33% de sua receita no longo prazo. “Se olharmos para a revolução digital, presumimos automaticamente que nosso negócio vai encolher”, diz o conde Anton-Wolfgang von Faber-Castell, diretor-presidente da empresa que leva seu nome. Mas ele descreve a ideia de escritórios e escolas sem papel e caneta como uma “ilusão —não aconteceu”.

As vendas globais de lápis e caneta estão crescendo, e o crescimento deve continuar por pelo menos cinco anos, de acordo com o Euromonitor International. As vendas de lápis devem crescer 4% este ano, para cerca de US$ 2,7 bilhões, enquanto as de canetas avançarão 4,9%, para US$ 8,5 bilhões, mostram os dados da empresa de pesquisa.

A fonte desse crescimento está, contudo, mudando. Os mercados emergentes são cada vez mais importantes para os fabricantes de lápis e canetas graças ao aumento de renda e das taxas de escolarização. Países em desenvolvimento na Ásia e na América Latina são grandes motores de crescimento. Na Ásia, as vendas de lápis devem crescer 5,4%, para US$ 1 bilhão, neste ano e na América Latina o crescimento será de 7%, para US$ 526 milhões, segundo o Euromonitor.

Essas regiões representam para a Faber-Castell cerca de 65% das vendas e a empresa espera mais crescimento nesses mercados, apesar da forte competição de rivais locais de menor preço. Para ganhar clientes, a empresa de 253 anos promove seu histórico de oito gerações como empresa familiar e seus métodos de produção e corte de madeira ambientalmente sustentáveis.

A Bic, maior produtora mundial de lápis e canetas por vendas, afirma que consegue superar produtores de baixo custo nos países em desenvolvimento porque entrou nesses mercados cedo.

“Nós vendemos bem na África e na América do Sul porque chegamos há cerca de 50 anos e oferecemos produtos de qualidade a preços baixos”, diz Benoît Marotte, diretor da divisão de artigos de papelaria da Bic.

A Bic, que produz lápis mecânicos e canetas descartáveis, assim como lâminas de barbear e isqueiros, informa que seu segmento de artigos de papelaria cresceu em 5% a 10% em países em desenvolvimento no ano passado, comparado com alta de menos de 5% em economias avançadas.

No geral, as vendas de lápis e caneta na América do Norte e Europa estão estáveis ou crescendo ligeiramente, segundo a Euromonitor. Nos Estados Unidos, as vendas de lápis se recuperaram depois de uma queda em 2010.

“As pessoas estão redescobrindo a sensação de um lápis recém-apontado”, diz Lori Booker, porta-voz da Dixon Ticonderoga, com sede nos EUA, conhecida por seus lápis amarelos “Número-Dois”.

E elas estão optando por produtos melhores. O valor total das vendas está subindo enquanto o total de lápis e canetas vendidos não está, porque os consumidores ocidentais têm migrado para produtos de melhor qualidade.

A Faber-Castell tenta tirar proveito dessa tendência. Sua linha de instrumentos de escrita de luxo, chamada “Graf von Faber-Castell”, é vendida principalmente na Alemanha, Itália e França. O “lápis perfeito” banhado em platina e que possui apontador e borracha embutidos custa cerca de 200 euros (US$ 255). Uma versão com diamante incrustado sai por cerca de 10.000 euros.

Felix Stöckle, especialista em marketing da consultoria Prophet, em Berlim, diz que a demanda por lápis e canetas não morrerá como consequência do boom digital. “Temos smartphones, mas existem momentos em que procuramos dar uma pausa nisso”, diz ele.

Matéria publicada no jornal Valor Econômico em 17 de Outubro de 2014