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CUBO MINIMALISTA EM SÃO PAULO

14/10/2014

Moradores prezam pelo vazio para destacar arte

Não, não se trata de uma “verdadeira galeria de arte”. É uma casa, mas destas muito especiais. Projeto limpo, limpíssimo, de Isay Weinfeld, na nobre região dos Jardins, em São Paulo. Diferente da maioria por dentro, no entanto: minimalista na arquitetura porque sim, feita sob medida para atender a anseios concretos de um casal de apaixonados pela arte desse mesmo estilo. Hoje, ali, predominante, por meio das inúmeras obras exibidas, que privilegiamos expoentes do minimalismo norte-americano dos anos 1950 a 1980 especialmente, ao lado de jovens artistas brasileiros e contemporâneos estrangeiros. O cubo, literalmente branco, e todo com piso de cimento, ganha paredes e volumes específicos para receber determinados trabalhos, e até uma sala escura que abriga um vídeo permanente. O que não faz da casa um museu. Ela tem o perfume de uma família constituída de pai, mãe e filhas. A residência vive como outra qualquer, mas recheada da (excelente) arte que respira.

“Receber a coleção era parte importante do programa; mais ainda, da vida desses clientes”, afirma Isay. Afinal, o casal que encomendou ao arquiteto este projeto, há 13 anos, se conheceu por causa da arte, uma paixão em comum – ele teve uma galeria no final da década de 1990 e já era grande colecionador de autores brasileiros (Oiticica, Lygia Clark, Mira Schendel...) e ela trabalhava como advogada no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Casados desde 2000, eles evoluem como seu acervo, um sonho sempre em mutação. “Assim como o gosto, que também vai mudando”, segundo a proprietária, que considera um privilégio poder conviver assim com as obras. De contemporâneos nacionais, ainda que sem abandoná-los por completo, a coleção migrou mais recentemente para esse apreço pelo minimalismo. E uma corrente imaginária de integração entre as peças percorre, como uma ocupação, os três andares e poucos ambientes (basicamente três salas, sendo a de TV integrada à de almoço, e três quartos), sempre amplos, da construção de 900 m².

Junto ao desejo de viver em meio à arte, há na família ainda o gosto pela decoração desta residência de pé-direito alto e iluminação zenital, o que a torna muito agradável por estar permanente e naturalmente iluminada. Mas “a arte vem antes, e os móveis vêm depois”, reafirma a proprietária, que enveredou profissionalmente em 2013, junto com o marido, pelo ramo do décor. E, da mesma forma, seus próprios móveis de bom design do século passado vêm evoluindo e sendo mesclados com peças por eles importadas da França, e comercializadas no Brasil, já que são os representantes da tradicional Ligne Roset, hoje com150 anos e, coincidentemente, 150 designers que desenvolvem desenho de mobiliário e objetos para a marca. A decoração também minimalista, muito ao sabor da conhecida linha francesa, completa e encerra o mix atual da morada, que não abandona um quê brasileiro, como na cama assinada pelo português Joaquim Tenreiro, que, aqui, se radicou e fez casas inteiras como aquela em que os moradores adquiriram o exemplar único.

De algumas peças – tanto de arte quanto de mobiliário – que já não existem mais na morada, porque passadas adiante, eles dizem ter saudades. Mas nada que uma reserva técnica com itens preciosos não possa suprir em caso de eventual carência de uma estética sem a qual não vivem.

Matéria publicada no site Casa Vogue em 14 de Outubro de 2014 por Sergio Zobaran | Fotos Filippo Bamberghi