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NA FALTA DE SOFÁ, A MELHOR OPÇÃO É UMA ALMOFADA

17/09/2014

Um difusor de fragrâncias é raramente associado a estilo. Mas com assinatura e tiragem limitada pode virar objeto do desejo, como os tijolos que liberam perfumes no ambiente assinados pelo incensado designer inglês Tom Dixon, que colocou três versões do apetrecho a venda, por preços entre € 30 e € 90, exclusivamente na Maison & Objet (M&O), feira de mobiliário e decoração realizada em Paris, de 5 a 10 de setembro.

Dixon, escolhido como um dos designers do ano na exposição, reservou uma parte do estande à produção e comercialização dos tijolos perfumados. "A ideia não é só invadir Paris com nosso perfume londrino. Mas a fábrica mostra a velocidade com que podemos criar novas ideias e vender atualmente", disse.

Vender, principalmente. Os acessórios são hoje um importante vetor de negócios na decoração de interiores. "O design entrou nesse setor a partir de grandes peças de mobiliário, todos os designers faziam sofás, cadeiras e coisas assim. Mas com a retração econômica, as pessoas não têm dinheiro para comprar sofás e mesas. Mais e mais os grandes designers trabalham com acessórios, pequenos itens que se pode comprar. É um meio de dar acesso ao design para mais pessoas", explica Philippe Brocart, diretor-executivo da Safi, promotora do evento.

Trata-se de uma exposição gigantesca, com oito pavilhões temáticos que somam 260 mil metros quadrados e reúnem 3.500 expositores, sendo 60 marcas internacionais. Nesta temporada, 650 empresas apresentaram pela primeira vez suas linhas de produtos. "O show é sobre tudo para casa, então temos tecidos, iluminação, mobiliário, louças, utensílios para cozinha", explica Brocart.

Os acessórios estão por todo lado - especialmente almofadas, uma profusão de velas e objetos decorativos para todos os gostos, que contemplam até os interessados em ter uma gaiola ornamental que abriga um anão de jardim. Muitos itens têm forte apelo para os amantes do mundo animal. Cachorros, gatos, patos, alces, corujas, galinhas, tartarugas, pinguins, ovelhas e gorilas em várias cores, materiais e padrões. Para colocar na mesa, na parede, no sofá, em estantes, na bancada da cozinha e no jardim.


Objetos decorativos da holandesa &K que faz a linha kitch-moderninha
"É a melhor feira de negócios do mundo", diz Eric Kramer, da holandesa &K que marcava presença pelo 15º ano no evento e comemorava, já no segundo dia, a venda de 30 mil globos de neve (€ 3,95 a unidade no atacado) para diferentes países. O best-seller de uma coleção kitsch-moderninha, que vai de uma banqueta em forma de cogumelo que tem chapéu vermelho pintado com bolinhas brancas como assento a um verdadeiro zoológico de prateleira, é fruto da parceria de 25 anos com o designer Karkon Klevering.

Entre os prodígios de popularidade reina um buldogue - meio inglês, meio francês - criado pela designer Angeline Bailly para a Téo Jasmin. Muitas vezes cercado por estampas de flores, o bicho aparece de cocar, boina, boné, cartola, chapéu de cowboy em superfícies diversas, de espaldares de cadeiras a roupões de banho, passando, claro, pelas almofadas de apelo fofo.

Teo, o cachorro criado em 2009, é o astro em cerca de 600 itens se computadas a coleção própria e as dos 12 licenciados da marca, hoje disponível em 650 revendedores na França e em 150 pontos no resto da Europa, que responderam por um faturamento de € 5 milhões no ano passado. O bichinho tem propósito: angariar recursos para uma fundação de apoio a crianças que deve ser inaugurada em abril "graças ao Teo", diz Angeline, que atribui sua inspiração à Providência.

A inspiração também trouxe bons resultados para a Papelaria, uma das duas marcas brasileiras que participaram da M&O. Um picolé em uma tarde de verão foi a base para a criação de um bloquinho de notas com formato do sorvete, embalado em papel vegetal que até transmite uma impressão de geladinho e cheiro de fruta. Os bloquinhos apresentados na edição de janeiro da feira chegaram à Collete, flagship que virou ponto turístico em Paris.

Nessa edição da feira, conta Christian Sampaio, sócio da empresa, foram lançados bloquinhos na forma de comprimidos que vêm em embalagens similares às de remédios. Existem as opções que lembram Viagra, Rivotril, Lexotan e Prozac. "Eu sou meio hipocondríaco", confessa. Do tipo que não hesita em tomar duas pílulas de calmante antes de enfrentar um check-in no aeroporto. Mas a ideia dos bloquinhos farmacêuticos é que "existem melhores remédios do que as pílulas". Eles funcionam como placebos. As folhas azuis com formato de Viagra podem ser usadas em um correio elegante. O bloquinho redondo e rosa, que lembra o Lexotan, é a superfície para rabiscos que ajudam a tranquilizar, explica. Da faca de corte ao papel, tudo é original e patenteado. A capa e a contracapa dos blocos são resultado da conjunção de três tipos diferente de papel. "Você não encontra esse material no mercado."

Difusores de fragrância londrina, com tiragem limitada e numerada, do badalado designer inglês Tom Dixon, com preços de € 30 a € 90
Não se trata apenas de montar estandes, diz Brocart. "Tentamos entender os mercados, as tendências e dar a chave aos compradores." A feira tem uma curadoria para selecionar expositores que tragam inovações ou um bom design, explica. E também está preocupada em estimular os jovens talentos.

Em cada temporada seis jovens profissionais são escolhidos para mostrar seu trabalho. "Descobrimos muitos designers talentosos em toda a região asiática. E agora estamos procurando no Brasil e no México, para a feira em Miami", conta o executivo. "O que é interessante em todos esses países é que há um misto de criatividade no design com o uso de técnicas tradicionais, ou materiais tradicionais, uma pegada muito diferente." Em novembro, quando vier ao Brasil para divulgar a M&O de Miami, Brocart deve anunciar os talentos brasileiros que também irão à feira.

La Subtile, um coletivo para a produção de móveis de design em escala industrial estava entre os talentos emergentes da temporada. Sua mesa dobrável, que se transforma em banco e também em uma espécie de escrivaninha, estava exposta ao lado da cadeira Piana, desenhada por David Chiperfield para a Alessi, em um espaço dedicado à geometria, com objetos de múltiplos usos e configurações - empilháveis, dobráveis, reversíveis, intercambiáveis, deslizantes. O produto imaginado pelo designer Benjamin Letiariè durante a faculdade demorou um ano para sair do papel e chegar ao estágio de produção. "A alma da marca não é só a criatividade, mas o industrial", diz. Durante a feira, ele ainda não tinha recebido encomendas para a mesa-banco-escrivaninha, a venda por € 1.300. "Mas tenho bons pressentimentos."

A jornalista viajou a convite da Maison & Objet

Matéria publicada no jornal Valor Econômico em 17 de Setembro de 2014 por Celia Rosemblum de Paris