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CONSTRUÇÃO SUSTENTÁVEL: TÉCNICAS INOVADORAS

27/08/2014

O Brasil está se transformando em uma referência mundial da construção sustentável. Várias iniciativas voltadas para a solução de problemas crônicos nas grandes cidades apontam para a consolidação de um novo paradigma na área. As edificações verdes já representam 9% do Produto Interno Bruto (PIB) da construção civil e crescem 30% ao ano, segundo estudo da consultoria EY. Esse mercado de R$ 13 bilhões tem levado ao cotidiano alguns temas da ordem do dia, como eficiência energética, uso racional da água, técnicas construtivas inovadoras e novos materiais que favorecem o conforto e o bem-estar.

É uma boa oportunidade para se informar sobre modelos de certificações reconhecidas internacionalmente, como a Aqua-HQE, adaptada para o Brasil a partir de uma norma da França; a BREEAM, do Reino Unido, a DGBN, da Alemanha, a japonesa CASBEE e a americana LEED. No fim de julho o Brasil ultrapassou os Emirados Árabes Unidos no ranking de empreendimentos que buscam a LEED e agora ocupa a terceira posição, atrás dos EUA e da China. Presente em 153 países, o selo é concedido pelo Green Building Council (GBC).

"Planejar antes de projetar e construir é uma das exigências do Aqua-HQE", diz o diretor executivo da certificação de origem francesa, Manuel Carlos Reis Martins. Lançada em 2008 pela Fundação Vanzolini, ela já certificou 305 edificações no Brasil, especialmente em prédios corporativos. A Fundação está realizando uma experiência-piloto de treinamento com corretores de imóveis para que apresentem as características de sustentabilidade dos empreendimentos aos investidores.

"Eficiência e racionalidade são questões primordiais a atacar", avalia o engenheiro civil Marcelo Takaoka, membro do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS). Ele ressalta a importância da adoção de soluções sustentáveis na esfera urbana, que consome dois terços da energia mundial e ocupa só 3% da superfície terrestre. "Temos uma boa oportunidade de enfrentar as mudanças do clima no planeta trabalhando nas cidades", diz. "É possível reduzir o consumo de energia em 30% com tecnologias já existentes, o que representaria uma economia anual de US$ 1,6 trilhão no mundo".

Takaoka faz outro cálculo considerando os R$ 100 bilhões financiados em 2013 para a construção civil: "Se poupássemos 5% com eficiência e racionalidade, poderíamos ter uma economia de R$ 5 bilhões para o país".

Ele lembra que a visibilidade da medição do consumo energético por meio de tecnologias como a smart grid é fundamental para a educação: "Se as pessoas não conseguem ver o quanto estão consumindo, não fazem ação nenhuma para melhorar".

Para Adriana Levisky, vice-presidente da Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (AsBEA), a adesão progressiva aos processos de certificação sinaliza mais sensibilidade do mercado ao tema, mas ainda é acanhada. "Não se pode falar de sustentabilidade olhando só para as questões ambientais", afirma. "É preciso haver uma ação abrangente sobre os aspectos sociais, econômicos e culturais, de forma integrada, com planejamento contínuo e ajustes ao longo do tempo."

Ela menciona o déficit habitacional do país, que demanda ações urgentes de regularização fundiária, habitação social e recuperação de espaços degradados. Levisky acredita que o momento abre muitas oportunidades para a construção civil, em especial em grandes programas, como o Minha Casa Minha Vida. "Por exemplo, há espaço para atuação em rede quanto à normatização de materiais, que pode agregar valor não só do ponto de vista energético, como com requalificação do processo produtivo."

"Tudo começa pela consciência da finitude dos recursos", reflete Benedito Abbud, reconhecido em 2013 com o prêmio Greening, do GBC Brasil, pela maestria no uso sustentável da arquitetura paisagística. "A cidade não é feita só de edificações, por isso são importantes os espaços de fruição onde as pessoas se encontram, namoram e trabalham." Para Abbud, o novo Plano Diretor de São Paulo é avançado em pontos como a previsão dos pocket parks (miniparques), que inclusive podem ser áreas privadas, e dos parklets, alargamentos de calçadas utilizando duas vagas de automóvel.

A sensibilização das construtoras para o uso de madeira certificada é uma das prioridades da FSC (Forest Stewarddship Council), organização que promove o manejo florestal responsável em mais de 70 países.

Matéria publicada no jornal Valor Econômico em 26 de Agosto de 2014