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BRASILEIRO REJEITA PENCHA DE ESBANJADOR

21/08/2014

Vinte e cinco por cento dos brasileiros se sentem ofendidos ou preocupados quando são descritos por outros como consumistas, pois entendem a classificação de forma pejorativa, como sinônimo de esbanjador. Em outras partes do mundo, a taxa média cai pela metade, para 12%. Apenas um entre dez se sente satisfeito ou orgulhoso por ser visto desta forma, contra a média de 24% em outros países.

As considerações fazem parte de pesquisa realizada em 11 países com 10 mil pessoas pela agência de propaganda WMcCann, intitulada "Truth about Shopping" (A verdade sobre as compras), antecipada ao Valor.

Além disso, 89% dos brasileiros dizem que as pessoas no país estão mais materialistas do que dez anos atrás, buscando satisfação por meio da aquisição de bens. Mas quando questionadas sobre si mesmas, as pessoas se defendem: 68% afirmam que não se veem como compradores compulsivos ou apenas com interesses materiais.

Portanto, ele não se vê, socialmente, como um consumista, porque entende que atende a um desejo de compra reprimido e, logo, justificável. Não pode, por isso, ser visto como um "gastador", segundo interpretação de especialistas que estudam psicologia do consumo. Foram analisadas na pesquisa diferentes classes sociais em todas as regiões do país.

"Há uma diferença entre atitude e comportamento. A atitude é a forma como a pessoa é vista e o comportamento é a repetição dos atos, que definem a personalidade", diz Nelson Barrizzelli, professor doutor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP. "O consumidor se comporta de uma forma e se vê perante os outros de outra. As pessoas creem que não esbanjam, só gastam quando tem dinheiro e se passam da conta, soa o alarme e precisam se reorganizar. A maioria não se vê como perdulária."

"É difícil o brasileiro se assumir como alguém que gasta muito, mesmo entre aqueles que compram bem acima da média. Mas 86% dizem que está mais fácil gastar hoje do que há dez anos, pelo acesso maior ao crédito, contra média de 79% dos outros países. E 61% dos brasileiros afirmam que é impossível se desligar das compras hoje, versus 38% na média [do estudo]", diz Luiz Marques, planejador da agência e responsável pela supervisão do estudo no país.

O relatório da WMcCann, criada da união de W/ e McCann em 2010, foi concluído neste ano. Foram entrevistadas mil pessoas no país. Participaram da análise também África do Sul, Chile, China, Emirados-Árabes, Espanha, EUA, França, Índia, Inglaterra e México.

Segundo Barrizzelli, mostrar uma postura mais responsável quanto aos gastos pode refletir o difícil ambiente econômico atual. A pesquisa no país foi feita entre outubro e novembro, após os protestos de 2013, que afetaram o humor da população. "Em anos de baixo crescimento, é difícil isso não ter influência na avaliação das pessoas". Marques, entende que há um peso cultural forte nas análises. "Há uma questão de culpa e responsabilidade em relação ao dinheiro que interfere na forma como o brasileiro pensa."

Ainda segundo o estudo, mais brasileiros (42%) do que consumidores de outros países (28%, em média) dizem que "lutam" para fechar uma compra com as melhores condições possíveis, de preço e prazo, por exemplo. Mas há uma taxa menor de consumidores locais abertos a aprender sobre novos produtos (24%), em comparação aos outros países (40%).

O estudo identificou ainda que 83% dos brasileiros se preocupam com a quantidade de informação que as lojas on-line têm sobre eles, mas 67% estariam dispostos a dividir os dados sem problemas, desde que isso os beneficiasse de alguma forma. "Para o brasileiro a privacidade pode ser negociada, desde que ele ganhe algo, como desconto ou informações de um lançamento exclusivo".

Na média dos 11 países, uma taxa ligeiramente menor (65%) aceitaria negociar suas informações pessoais para ter algo em troca.

Matéria publicada no jornal Valor Econômico em 20 de Agosto de 2014 por Adriana Mattos