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DIVIDIR PARA GOVERNAR

17/06/2014

A economia colaborativa prospera de Seul a Nova York
Com um amplo programa, a prefeitura de Seul torna-se destaque da economia colaborativa, na qual ter acesso a bens é melhor do que possuí-los. Moda ou a nova fase do capitalismo?

De trem, metrô ou ônibus, os habitantes das grandes cidades estão acostumados a compartilhar os meios de transporte. Mas em Seul, a capital coreana, a prefeitura decidiu dar um passo à frente. Montou uma frota de 500 carros elétricos que estão à disposição da população em 292 estações espalhadas pela cidade.
Em oito meses, o serviço de compartilhamento de carros conseguiu atrair mais de 120?000 usuários. A inscrição e a reserva dos carros são feitas online, e 1 hora de aluguel sai por menos de 20 reais. Quem prefere ficar com o automóvel o dia inteiro paga cerca de 110 reais.

Para enfrentar a falta de estacionamento, a cidade montou um programa que permite o aluguel de garagens no período em que as pessoas estão trabalhando. Desde que o prefeito Park Won-Soon tomou posse, em 2011, dividir é a palavra de ordem na metrópole de 10 milhões de habitantes.

A prefeitura incentiva e mantém postos de aluguel de ferramentas, brinquedos e até ternos para quem precisa ir bem-vestido a uma entrevista de emprego. Cerca de 800 escritórios localizados em prédios públicos podem ser alugados para organizar encontros e palestras.

A prefeitura de Seul também criou, no ano passado, uma incubadora e começou a dar um selo de aprovação oficial para empreendedores da economia compartilhada. Como parte dessas iniciativas é gerenciada por aplicativos, o fato de se tratar de Seul faz toda a diferença. Mais da metade da população coreana tem smartphones, e a penetração de banda larga é a maior do mundo.

Todos esses programas inovadores foram inspirados no que vem sendo chamado de economia colaborativa (collaborative economy ou sharing economy, em inglês). Para um grupo crescente de pessoas, ter acesso a bens e serviços é melhor do que possuí-los. De forma mais ampla, esse conceito também inclui sites e aplicativos que transformam consumidores em vendedores e provedores de serviços.

Em sites de leilão, eles vendem produtos novos e velhos. Em sites como o AirBnB­, alugam casas e apartamentos para turistas. Na esfera pública, o centro das atenções está em Seul, cidade com o maior número de programas da sharing economy.

No setor privado, a meca da economia colaborativa fica na região de São Francisco, nos Estados Unidos, de onde saíram várias das startups que agora se espalham por todas as partes. Muitos programas governamentais e novos negócios tiveram a mesma origem: surgiram para tentar resolver problemas provocados pela crise global de 2008.

Com menos dinheiro no bolso, as pessoas foram incentivadas a economizar em áreas às quais nem sempre prestavam atenção. Até mesmo as roupas entraram no jogo — por que comprar uma nova se dá para trocar?

Em Barcelona, a prefeitura fundou o Banco de Tempo, programa que permite às pessoas dar e receber treinamento sem envolver nenhum tipo de pagamento.

Funciona da seguinte forma: quem sabe um idioma estrangeiro ou faz programação de software, por exemplo, dá aulas, acumula horas e depois as usa como crédito para assistir a um curso sobre qualquer tema de seu interesse. Em toda a Espanha, onde a população sofre com altas taxas de desemprego, já há mais de 300 bancos de tempo.

Até o momento não existe um número confiável sobre o tamanho da economia colaborativa em escala global. No segmento de compartilhamento de carros, estima-se que 1,7 milhão de pessoas façam uso do serviço em 27 países.

Uma pesquisa com um escopo mais amplo foi feita de outubro a dezembro de 2013 nos Estados Unidos, no Reino Unido e no Canadá pelas empresas de mar­keting Vision Critical e Crowd Companies.
Mais da metade dos britânicos, 41% dos canadenses e 39% dos americanos disseram já ter usado sites ou aplicativos ligados à economia colaborativa, como o Uber, que permite às pessoas transformar seus carros em táxis, ou o thredUP, que facilita a troca de roupas usadas.
Mais revelador do que o tamanho dessa nova tendência é o fato de 91% de todos os entrevistados dizerem que recomendariam o último serviço colaborativo que utilizaram.

Até pouco tempo atrás havia grande dúvida a respeito da disposição das pessoas para estabelecer relações comerciais com estranhos pela internet. Como indica o resultado da pesquisa, a evolução de mecanismos de reputação online e de avaliação de usuários e as redes sociais têm contribuído para o aumento da percepção de segurança.

“Os serviços da economia compartilhada estão mudando a maneira como encaramos os negócios virtuais. Com seus vários sistemas de avaliação, eles estão criando um grande clima de confiança”, diz Steven Strauss, professor de políticas públicas da Universidade Harvard.

Nesse sentido, nenhum outro exemplo é mais ilustrativo do que o ­AirBnB. O site une milhões de turistas a 600?000 interessados em alugar seus apartamentos e suas casas em 160 países. Após uma captação de recursos no mês passado, a empresa foi avaliada em 10 bilhões de dólares.

Vítima do próprio sucesso, virou alvo das autoridades na cidade de Nova York, que proíbe o aluguel de casas e apartamentos por um período inferior a 30 dias. (A lei não atinge famílias que moram numa casa e alugam um ou mais quartos.)

O medo das autoridades é que proprietários de vários imóveis decidam alugar por curtas temporadas a turistas e acabem diminuindo a oferta de casas para inquilinos que moram na cidade — 30% dos inscritos no AirBnB em Nova York têm mais de um imóvel. Além disso, quem aluga pelo AirBnB não paga imposto como os hotéis e nem sempre respeita a lei de zoneamento, que proíbe atividade comercial.

Para o economista americano Jeremy Rifkin, autor do recém-lançado The Zero Marginal Cost Society (“A sociedade do custo marginal zero”, numa tradução livre), problemas regulatórios como esse não devem barrar o crescimento da economia colaborativa.

Entusiasta do assunto, Rifkin argumenta que iniciativas adotadas por prefeituras e o surgimento de mais empresas como o AirBnB deverão ser alguns dos motores de uma nova fase do capitalismo, uma época marcada pela queda continuada do preço de produtos e serviços.

Graças à popularização da internet, sites e órgãos públicos estão conseguindo unir oferta e demanda com custos baixíssimos. Caso essa tendência ganhe força, o que para Rifkin é uma certeza, mais setores deverão sentir os efeitos da economia colaborativa.

Seus defensores até podem ter ideais meio “paz e amor”, mas que ninguém se engane: a collaborative economy tem uma grande capacidade de destruir negócios tradicionais. Que o diga o setor hoteleiro. Em um ano, os hotéis de Nova York perderam 1 milhão de diárias para o AirBnB.
Matéria publicada pela revista Exame em Maio de 2014.