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CONCRETO PARA ARMAR

13/06/2014

Casas da escola paulista de arquitetura, projetadas por Lina Bo Bardi, Artigas, Paulo Mendes da Rocha e outros, são recriadas em maquetes e expostas na Itália.

Construídas nos anos 1950, 1960 e 1970, as casas de concreto da chamada escola paulista de arquitetura viraram objeto de estudo da Universidade de Ferrara, na Itália, e ganharam destaque no último Salão de Restauro e Conservação realizado na cidade.

Ícones como a Casa de Vidro, de Lina Bo Bardi, a Casa Masetti, de Paulo Mendes da Rocha, e outras criadas por arquitetos como Vilanova Artigas, Joaquim Guedes, Carlos Millan, Oswaldo Correa Gonçalves e Marcos Acayaba foram dissecadas pelos estudantes de Ferrara e depois recriadas em modelos digitais e maquetes para a mostra "Viver em Concreto".

Com notável experiência na recuperação de edifícios, os italianos miram com interesse um potencial mercado no Brasil, país onde o modernismo gerou muitos exemplares em concreto, que são candidatos ao restauro.

De grande plasticidade, o concreto, sem manutenção, envelhece rápido e mal.

Tem problemas de estabilidade e requer cuidado permanente, sob pena de deteriorar-se, como exemplifica o péssimo estado de outro símbolo da arquitetura paulista, o prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, de Artigas.

O estudo e a mostra dos alunos de Ferrara foram possíveis graças a um precioso mapa da mina: o livro "Residências em São Paulo: 1947-1975", feito pela arquiteta Marlene Milan Acayaba. Editada há quase 30 anos (1987), a obra virou raridade em sebos por um período e ganhou reedição fac-similar em 2011.

O volume traz fotos, desenhos técnicos com plantas e cortes, fichas e descrições de 43 residências construídas, além de textos analíticos.

A farta documentação serviu de guia para o trabalho de arqueologia arquitetônica.

Traduzindo textos, comparando fotos e plantas, os estudantes fizeram uma imersão nas casas paulistas.

"Eles se surpreenderam com a qualidade espacial dessa arquitetura, de cheios e vazios, bem diferente da arquitetura mais compositiva, de planta e fachada", diz Marlene Acayaba.

EXPERIMENTAÇÃO

A autora exemplifica em "Residências em São Paulo: 1947-1975" algumas das características da escola paulista, que ela define como "empírica e de grande experimentação criativa".

O livro flagra o momento que engendrou um grande canteiro de obras experimental. Graças aos projetos privados de residências unifamiliares, custeados por uma parte da elite intelectual e econômica da cidade, os arquitetos puderam ensaiar suas ideias e criar espaços com grande liberdade, no período em que eram escassas as oportunidades de projetos de edifícios públicos.

Despojadas na superfície, essas construções têm em geral interiores abertos, pátios e jardins internos, e se abrem sem grandes obstáculos para a rua, exaltando o espírito coletivo que fazia parte do ideário de seus criadores.

Mas essa arquitetura nua não tinha em mente sua posterior conservação. "Os arquitetos não pensavam em acabamento, nos materiais. Queriam fazer o espaço. E fizeram verdadeiras obras de arte", diz Acayaba.

Apenas uma das 43 casas listadas em seu livro foi derrubada --a do arquiteto Siegbert Zanettini, no Itaim.

Ainda assim, Acayaba considera que hoje muitas dessas casas são insustentáveis.

"São grandes, em terrenos caros, requerem muita manutenção e não se enquadram mais no modo de morar de hoje. Além disso, estão em bairros residenciais, que também não devem durar muito mais tempo numa cidade como São Paulo", diz.

"A verdade é que a arquitetura moderna já é antiga", diz Acayaba.
Matéria publicada pelo Jornal Folha de São Paulo em Maio de 2014 por Mara Gama.