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PREÇOS ALTOS, MAIS TRÂNSITO E NOVOS NEGÓCIOS

13/06/2014

O jogo Brasil x Croácia, o primeiro da Copa do Mundo, o estádio do Corinthians. Mas o bairro de Itaquera, na zona leste de São Paulo, não está atraindo apenas torcedores. Empresas estudam instalar-se na região, onde moradores reclamam da alta dos preços, do trânsito e do metrô lotado, ao lado de pequenos empresários mais otimistas, que estão investindo em seus negócios.
É o caso de Sheila Marinho, nascida e crescida em Itaquera. Animada com a Copa, decidiu, há um mês, trazer seu salão de beleza de uma região mais afastada para o coração do bairro, a uns dois quilômetros do Itaquerão. Gastou mais de R$ 80 mil com reformas e modernizações e, contrariada, aceitou pagar o dobro de aluguel pelo novo espaço.
"Primeiro me pediram R$ 15 mil por mês. Dei as costas na hora, mas uma semana depois me ligaram e fechamos por R$ 8 mil. No outro salão, que tinha os mesmos de 440 m2, pagava R$ 4 mil. Esse é o problema mais complicado que estamos vivendo, principalmente porque a renda dos moradores daqui é baixa. Não podemos repassar esse aumento da especulação imobiliária para nossos preços. Não dá para cobrar um preço de Tatuapé aqui, os clientes não pagam", diz Sheila.
Com camiseta verde-amarela personalizada com a marca de seu salão, o Studio Belle, e maquiagem também verde-amarela nas pálpebras, Sheila elogia as novidades de Itaquera. "Nós nunca acreditamos que o Corinthians fosse abrir um estádio moderno como esse aqui, que empresas estariam interessadas em vir para cá. Há também a Fatec [Faculdade de Tecnologia de São Paulo], o projeto da universidade federal [Unifesp], o complexo viário Jacu Pêssego. As melhorias nunca são imediatas, principalmente porque estamos mais afastados. Ao mesmo tempo o crescimento está limitado em regiões mais centrais, é preciso desenvolver as extremidades da cidade. O Plano Diretor prevê estímulos para a zona leste. Temos que enxergar tudo isso como uma evolução gradativa", completa Sheila.
Companhias de maior porte concordam com a dona do salão. A empresa de tecnologia Concentrix, que comprou da IBM parte da empresa de serviços BPO, estuda instalar-se na região. De acordo com a IBM, a Concentrix ainda está estudando a localização do escritório em São Paulo, "e a zona leste por enquanto é uma alternativa".
Gigantes do setor de call center, como a Contax, já informaram a Prefeitura de São Paulo que têm interesse em operar na área, alvo de um programa de benefícios fiscais. A Contax informa que se pauta por atuação em regiões com requisitos estratégicos de seu negócio e que ainda não tem decisão tomada a respeito.
A Dasa , segundo apurou o Valor, também está interessada em instalar uma unidade do laboratório Delboni . Procurada, a Dasa informou que "não está se pronunciando sobre temas institucionais por conta da recente oferta pública de aquisição [OPA]".
O Shopping Itaquera vai deslanchar seu programa de expansão no segundo semestre e deverá aumentar o número de funcionários.
Para atrair empresas de call center e informática, a Lindencorp Urbanismo e Itaquera Desenvolvimento Imobiliário planeja construir um empreendimento comercial em um terreno de 228,32 mil m2 perto do Itaquerão. O investimento com a construção foi estimado em R$ 540 milhões, mas já subiu para R$ 700 milhões. O aumento deve-se a dois fatores: demandas dos futuros inquilinos e alta nos custos da obra, diz Marcos Lindenberg, diretor de novos negócios da Lindencorp.
Moradores e empresários do bairro estão divididos em relação ao legado que a Copa deixará a Itaquera. Há os céticos. Eles reclamam do aumento do custo de vida, sobretudo do aluguel residencial e comercial, e do trânsito provocado pelas obras e bloqueios de ruas em dias de jogos no estádio.
Aqueles que percebem melhorias no bairro, citam a nova iluminação de LED (diodo emissor de luz, em inglês), o alargamento de calçadas, o asfaltamento de ruas e avenidas e a chegada de alguns equipamentos públicos, como a Fatec, instalada ao lado do Itaquerão, e o futuro projeto da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), prevista para um terreno doado pela prefeitura na avenida Jacu Pêssego.
A zona leste tem 326,8 km2, tamanho similar ao de Belo Horizonte, e ocupa cerca de 20% do território da cidade de São Paulo. A região concentra grande densidade de moradores, mas baixo índice de empregos. Segundo a Lindencorp, a população economicamente ativa da zona leste é de 2,3 milhões de pessoas. A área tem 700 mil postos de trabalho.
O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT) disse na semana passada que cerca de 60 mil empregos podem ser criados pelas empresas que manifestaram interesse em se instalar na região. O plano é criar 100 mil vagas na zona leste até 2016, quando termina o mandato de Haddad.
O Shopping Itaquera vai aumentar o quadro de 3 mil funcionários, mas não por causa dos incentivos da prefeitura. A administração do centro de compras tem um projeto de expansão que vai quase dobrar o número de lojas e quiosques, de 180 para 300.
O Shopping Itaquera recebe cerca de 65 mil visitantes por dia. Ficará fechado durante os jogos do Brasil, mas vai receber festas: Ambev e Coca-Cola montaram espaços para realizar eventos na área externa do centro comercial.
A região está bem policiada. Nos dias de jogos, a PM envia mais efetivo ao entorno do estádio.
Os investimentos do poder público em Itaquera tiveram foco em mobilidade urbana e no acesso ao estádio. Parte das obras recebeu financiamentos do governo federal via Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A Copa acelerou as obras do polo institucional (equipamentos públicos, como escola e hospital), e do sistema viário.
A partir de julho, esse polo vai crescer sobre uma área que, durante a Copa do Mundo, será usada como estacionamento. Lá estão previstas as construções de sete empreendimentos: centro cultural (durante o torneio será uma vila de hospitalidade), Museu da Criança, unidades do Sesi e Senai, fórum, incubadora de projetos empresariais, Obra Social Dom Bosco e Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de saúde.
A movimentação no bairro por causa da Copa do Mundo encareceu a vida em Itaquera e não é difícil encontrar moradores que reclamam das mudanças. Luceia Gonçalves, de 44 anos, mudou para Itaquera há dez anos, desde quando se casou e deixou o bairro da Casa Verde, na zona norte de São Paulo. A família mora perto do Itaquerão, "a dois pontos de ônibus do metrô". Ela trabalha como secretária no Itaim-Bibi, na zona sul. "O estádio só fez Itaquera mudar para o mal. Tem mais trânsito, metrô mais lotado e mais gente."
O trânsito é um dos principais problemas do bairro, mas há outros: usar a internet 3G do celular no entorno do estádio é difícil. Enviar um e-mail do telefone, por exemplo, pode levar 20 minutos.

Matéria publicada pelo Jornal Valor Econômico em 12 de Junho de 2014 por Leticia Casado e Luciano Máximo.