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PESO DE DÍVIDAS DAS FAMILIAS CRESCE, E CONSUMO DEVE CAIR

10/06/2014

Fenômeno resulta de combinação de prazo menor de empréstimos, alta dos juros e salários subindo menos.
Financiamento da casa própria ocupa fatia cada vez maior do crédito para pessoas físicas e deve crescer.

A combinação entre elevação da taxa de juros, expansão mais moderada dos prazos de empréstimos e aumentos menores dos salários fará com que a parcela da renda das famílias comprometida com encargos de dívidas suba para nível recorde.
Essa tendência deverá contribuir para frear ainda mais a expansão do consumo das famílias, que já vem perdendo ritmo. A projeção é do banco Credit Suisse.
"A taxa básica de juros está subindo e o aumento da renda disponível é o menor em muitos anos", diz Nilson Teixeira, economista-chefe do Credit Suisse.
IMPACTO DA SELIC
Segundo o Credit Suisse, a redução dos juros por parte dos bancos públicos em linhas como operações de crédito rotativo do cartão de crédito ajuda a explicar a queda.
Outro fator foi a desaceleração na oferta de financiamento para a compra de veículos na esteira do esforço dos bancos privados para limpar suas carteiras de créditos inadimplentes.
No entanto, o impacto da elevação da Selic sobre as taxas dos financiamentos bancários já vem sendo sentido e aumentará ainda mais.
No caso do crédito imobiliário, os juros para pessoas físicas com recursos direcionados aumentaram de 7,8% no primeiro trimestre de 2013 para 9,4% no mesmo período deste ano.
CASA PRÓPRIA
Tendências nos financiamentos para compra da casa própria têm se tornado cada vez mais importantes para as famílias brasileiras.
Entre 2008 e o primeiro trimestre de 2014, a parcela do crédito imobiliário no estoque de crédito para pessoas físicas quase triplicou, saltando de 11% para 28%.
Nas estimativas do Credit Suisse, o crédito imobiliário continuará se expandindo, mas em ritmo mais modesto.
Segundo Bentes, a procura por financiamento para compra de bens duráveis deve continuar piorando.
"Segmentos do comércio mais dependentes de crédito, como móveis, eletroeletrônicos e artigos de informática são os que mais sofrerão."
INFLAÇÃO
Fernanda Della Rosa, assessora econômica da Fecomercio-SP, afirma que, além da alta dos juros, a inflação mais elevada tem contribuído para o maior pessimismo entre os consumidores.
Indicador da instituição que mede a confiança das famílias despencou de 155,6 em abril de 2013 para 119,7 no mesmo mês deste ano (o índice varia de 0 a 200).
Segundo a economista, isso tem levado os brasileiros a colocarem o pé no freio na procura por crédito.
"Tudo isso indica que não há perspectiva de melhora dos indicadores macroeconômicos no curto prazo".
O economista Fábio Bentes acredita que a combinação de aumentos de salários mais minguados e juros em alta resultará em aumento da inadimplência de pessoas físicas do atual nível de 6,5% para 7% no segundo semestre deste ano.
Matéria publicada pelo Jornal Folha de São Paulo em 25 de Maio de 2014 por Érica Fraga.