NA ERA DE MODA RÁPIDA E FRAGMENTADA

Alinhada a tendências internacionais, a SPFW busca driblar a crise e se adaptar à velocidade das redes sociais

Não houve mais palmas no fim dos desfiles. E esse é um detalhe sintomático. Na plateia, estão todos com as mãos ocupadas, segurando o celular, filmando e fotografando tudo. A moda mal acaba de nascer ali na passarela e já corre solta em posts no Instagram e minicenas do Snapchat. A  superexposição fragmenta e democratiza a moda e cria um grande nó, difícil de ser desatado: como lançar uma novidade, despertar desejo e só colocá-la à venda seis meses depois? Na última edição da São Paulo Fashion Week, encerrada na sexta, 29 de abril, as marcas começaram a tentar mudar o jogo. A partir do próximo ano, o calendário será modificado para que as peças desfiladas cheguem às lojas na sequência. O tempo entre a passarela e a vitrine será eliminado. “A SPFW é relevante, porque é a vitrine da nossa moda. Sou uma defensora radical da mudança de estrutura nos desfiles no Brasil”, diz Daniela Falcão, diretora da redação da revista Vogue. “Da forma como é hoje, a consumidora fica frustada. Ela vê aquela jaqueta jeans bordada, peças com o novo japonismo, mas não acha nada nas vitrines.”

Há um imediatismo no ar. As grandes empresas, como a Riachuelo, já nesta edição conseguiram se adaptar ao novo modelo – logo após o desfile da coleção de Karl Lagerfeld para a rede, as peças começaram a ser vendidas na passarela. No dia seguinte, chegaram a 140 lojas da marca e se esgotaram em muitas autorais, que têm uma estrutura enxuta, também vêm reagindo a essa era de informação rápida. “Reinaldo Lourenço, por exemplo, fez uma coleção que era continuação da anterior. Neste momento, não dá para fazer grandes rupturas, pois a cliente não quer sentir que o que acabou de comprar é algo velho”, afirma Daniela.

Não à toa, o slow fashion nesta edição foi marcante. Muitos nomes famosos, como Alexandre Herchcovitch e Isabela Capeto, voltaram a seus ateliês, produzindo em pequena escala e usando a criatividade para driblar a crise agora à frente da marca À La Garçonne, Hercchcovith fez uma coleção baseada na reforma de peças e tecidos vintage. Ele engrossou o movimento sustentável que é um dos grandes desafios desse setor baseado no consumo. “Esta edição veio precedida de muitas dúvidas”, informa Paulo Borges, criador e organizador da SPFW, referindo-se à crise. “Mas, no fim, ela foi surpreendente do ponto de vista criativo e mostrou a força da indústria.”

O período de crise econômica no Brasil deixou evidente ainda outra velha questão da moda nacional: a apropriação do imaginário de coleções europeias nas nossas passarelas. Silhuetas, proporções, estampas e acessórios lançados recentemente por grifes como a italiana Gucci e as francesas Vetements e Balenciaga apareceram muito. Mas com um olhar brasileiro. “Faz parte da nossa cultura valorizar o que vem de fora e não ter medo de se deixar contagiar. Desde a Antropofagia até os bailes funks, passando pela Tropicália, a gente reinterpreta referências mundiais de forma natural”, afirma Sérgio Amaral, diretor de redação da revista L’Officiel Hommes. Lá e aqui, o que se vê agora são camisas que cobrem os punhos, calças jeans amplas (é o fim da era da skinny), vestidos transparentes, plissados, metalizados, estampas esquisitas à primeira vista e um estilo urbano (batizado de street couture), que mistura peças esportivas e silhuetas soltas, desmontadas e descoladas, com acabamento e tecidos luxuosos. Há uma busca por conforto, cores alegres e praticidade no que você vai querer usar agora. E, com sorte, daqui a seis meses também.

Na era 1Lenny Niemeyer mostrou toda sua expertise ao criar biquínis e maiôs com estampas inspiradas no Japão. A moda praia, aliás, se renovou nesta temporada com boas coleções.

 

Na era 2Sempre poético, Ronaldo Fraga fez moda política ao abordar a questão dos refugiados em uma coleção que remetia à África

Matéria publicada pela jornalista: Maria Rita Alonso do, O Estado de São Paulo em 01 de maio de 2016

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