SEBRAE APOSTA NA INOVAÇÃO PARA MELHORAR A GESTÃO DE EMPRESAS

09

Luiz Barretto, presidente do Sebrae

Programas para acelerar a competitividade em pequenas e médias companhias podem ajudar o empreendedor nos atuais tempos nebulosos. “Momentos de crise são oportunidades para repensar modelos de negócio e usar a inovação como uma maneira de se diferenciar dos concorrentes”, diz Luiz Barretto, presidente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Além do Sebrae, instituições como o Insper e Endeavor lançam ou renovam ações que prometem apoiar empreendedores em áreas como inovação, aumento da produtividade e acesso ao crédito.

As iniciativas chegam em boa hora. Somente em São Paulo, a receita das micro e pequenas empresas caiu 10,2% em maio, em relação ao mesmo mês de 2014, já descontada a inflação. É a quinta queda consecutiva do faturamento do setor, segundo o Sebrae-SP. No acumulado dos cinco primeiros meses, a baixa chega a 12,4%.

Em abril, o Sebrae-SP disparou o Inova, um programa que lista 600 soluções voltadas à gestão, cultura empreendedora, tecnologia e acesso ao crédito. “O objetivo é tornar as empresas mais eficientes”, explica Fábio Ângelo Bonassi, consultor do Sebrae-SP. A novidade atende os segmentos do agronegócio, comércio, indústria e serviços. No primeiro, cobre pecuária, atividade leiteira, plantio de café, fruticultura e olericultura. Nos setores de comércio e serviços, é direcionado a lojas de material de construção, de vestuário, bares e restaurantes, além de supermercados e o ramo de turismo. Na indústria, envolve alimentos e bebidas, automóveis, cerâmica, construção civil, couro e calçados, madeireiras e gráficas.

Para participar, basta o empreendedor ir a uma unidade do Sebrae-SP. “Ele pode fazer diagnósticos empresariais, assistir palestras e receber assessorias individuais, com consultores.” O menu de ofertas inclui ações de melhoria nos departamentos financeiros e atendimento a clientes, ferramentas para calibrar processos de produção e análises de mercado que identificam novos consumidores. “É se aperfeiçoando nos períodos de crise que a empresa colherá bons resultados quando o ciclo de crescimento chegar”, diz Bonassi. “Além disso, melhorar a gestão também é reduzir custos e estudar novas formas de fazer o mesmo, de um jeito diferente. É inovar.”

Segundo Barretto, do Sebrae Nacional, investimentos em inovação garantiram, no último ano, um aumento de mais de 10% no faturamento de pequenas empresas que apostaram em novas tecnologias e no aperfeiçoamento de processos de trabalho. Para levar mais inovação ao setor, a entidade relançou em 2010 o Sebraetec, programa que subsidia até 80% do valor de consultorias tecnológicas. No ano passado, foram investidos R$ 271 milhões na iniciativa. Em 2015, a previsão é aplicar R$ 303 milhões e, até 2018, o montante deve chegar a R$ 1,1 bilhão.

O Sebraetec atua em nichos como qualidade, design, tecnologia da informação (TI), propriedade intelectual e sustentabilidade. A meta é viabilizar também o acesso das empresas às avaliações de conformidade e atender exigências de contratos nas cadeias de petróleo e gás, produtos químicos, madeira e siderurgia. Em 2014, a ação acompanhou 92,7 mil companhias. Este ano, a expectativa é chegar a 100 mil negócios atendidos. A maioria do público é de empreendimentos que faturam até R$ 360 mil ao ano, principalmente indústrias de alimentos, bebidas e da construção civil. De acordo com levantamento do Sebrae, um quarto das firmas que buscou a iniciativa engordou os lucros em mais de 25%, em um ano.

Atualmente, segundo Barretto, há uma maior demanda por alternativas relacionadas à redução do gasto de energia. Entre maio de 2014 e abril de 2015, a procura por esse tipo de atendimento cresceu 15,5%, ante o mesmo período do ano passado. “O investimento em tecnologias ligadas à eficiência energética tem gerado uma queda média de 20% no consumo das empresas”, diz. “Consultorias como essa conseguem entregar economias que são observadas pelo empresário quase que imediatamente.” Agora, o plano do Sebrae é adequar as ofertas do Sebraetec aos microempreendedores individuais (MEIs), que já somam cinco milhões no país.

Para Manuel Mendes, diretor da consultoria Boston Innovation Gateway e do conselho executivo da Associação de Empreendedorismo da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, os programas de inovação devem não só ajudar os empresários a desenvolver novas ideias, mas levá-los ao mercado de forma mais rápida e barata. “Para ser bem-sucedidas, essas ações precisam observar a realidade de cada empresa e garantir o comprometimento dos gestores com as mudanças sugeridas, antes, durante e após o apoio.”

O especialista diz que os empreendedores também devem enxergar a competição de mercado como um indutor para o aprimoramento dos negócios. “Em dias de economia fraca, as companhias são levadas a se reavaliar”, diz. “Podem ainda ganhar mercado a custo zero, por meio de soluções inovadoras para os clientes”.

Mendes cita o exemplo da montadora Hyundai, após o baque financeiro de 2008, nos Estados Unidos. Ao invés de baixar os preços dos automóveis, como fizeram os concorrentes, a fabricante identificou que o principal impedimento dos consumidores para comprar veículos era o medo de perder o emprego e não quitar o financiamento. Assim, resolveu isentar os clientes do pagamento em caso de demissão. A estratégia deu certo: não teve problemas com inadimplência nessa faixa de compra e ainda saltou da sétima para a quarta posição no ranking de vendas do país. “Empresas inovadoras tendem a driblar a concorrência em períodos de crise porque conseguem captar, mais rapidamente, oportunidades de mercado e necessidades de mudança.”

De olho no potencial de novos empreendedores, acontece no Insper, no próximo semestre, a nona edição do Empreenda, competição de planos de negócio de alunos da instituição. “O concurso é uma chance para os estudantes desenvolverem modelos inovadores, com possibilidades reais de serem implementados”, explica Cynthia Serva, coordenadora do Centro de Empreendedorismo e Inovação do Insper (Cempi).

Os participantes são acompanhados por um mentor durante a gestação dos planos de negócios e os vencedores recebem apoio de uma aceleradora. No ano passado, o certame recebeu 32 projetos de cerca de 100 participantes. Entre os seis finalistas, surgiram ideias como aulas de culinária em casa para turistas interessados em conhecer a gastronomia nacional e customização de sapatos femininos. Segundo Cynthia, a maioria dos projetos continua na agenda dos empreendedores e pode virar empresas de fato, no futuro.

Matéria publicada no jornal Valor Econômico em julho de 2015

Esta entrada foi publicada em Empreendorismo, Gestão, Inovação, Negócios, Oportunidades. Adicione o link permanenteaos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>